
Daí que eu odeio gente que tenta parecer bom, educado e civilizado às custas dos outros.
Estava eu outro dia no trem, ouvindo música no mais alto volume que meus tímpanos permitiam. Observem, antes de mais nada, a cena da entrada no trem: aquela conexão que ninguém pega, porque é naqueles lugares onde não circula ninguém num domingo a tarde. O vagão basicamente vazio. Olhando em volta, uma série de bancos inteiros vazios, daqueles que cabem, com folga, umas quatro pessoas. Pois bem, entro eu neste trem e me sento no primeiro lugar que vejo, porque eu odeio andar dentro de trens e ônibus e afins (normalmente me sento próximo aos motoristas dos ônibus, pra não precisar andar até chegar ao cobiçado fundão). Enfim, do meu lado, sentou uma velha. Sei lá se foi antipatia natural, e isso acontece bastante comigo, mas eu já não tinha ido com a cara dela. Antes do trem chegar, ela ficava me encarando com as aqueles olhos pidões de velha solitária ARGH. Deus me livre.
Enfim, sentou-se do meu lado e ficou me olhando. E olhando. E olhando. E a minha música estava me divertindo um bocado (e eu não consigo ficar sem dançar com a cabeça e cantar a música sem usar som nessas situações). Sei lá, acho que ela tava achando graça em mim. Tanto faz.
Daí que entra uma mãe e sua criança. O menininho devia ter uns 3 ou 4 anos. Daí que dos meus dois lados tinham lugares vazios. Era tipo: barra de ferro – lugar vazio – eu – lugar vazio – velha coroca. Sim, eu gosto de me sentar em espaços grandes vazios quando posso, pra cruzar as pernas e etc. E eu podia naquele caso, porque tinha um MONTE de lugares vazios no trem e a pessoa tinha que ser muito cuzona pra querer se sentar justo no lugarzinho que eu tava ocupando, enquanto tinha vários outros espaços grandes, onde elas também poderiam cruzar as pernas e dançar.
Pois então que a mãe botou seu filho sentado no lugar vazio à minha esquerda e ficou em pé segurando a barra de ferro. Tá, pra mim tudo certo. Ficou bem claro que ela não queria sentar visto que: a) ela poderia ter ido pra um lugar maior, pra sentar ao lado do filho; b) ela poderia me pedir, por gentileza, pra ir um lugar para a direita e ela poder se sentar ao lado do filho; e c) era uma viagem de apenas uma estação até uma das movimentadas e quase o trem inteiro (inclusive eu) desceria na próxima (e normalmente as pessoas não se sentam quando vão logo descer mesmo – sou exceção a essa regra, sento sempre que consigo RS).
Enfim, continuei minha música e dança, com um pouco menos de desenvoltura, já que tinha um molequinho do meu lado. Daí que sinto uma coisa no meu ombro direito. De início, ignorei, porque eu costumo achar que essas coisas são imaginação até que elas se repitam. E repetiu. Olhei para a direita pra ver o que ocorria, quando percebo a velha coroca olhando pra mim, com a mão erguida (indicando que tinha tocado no meu ombro) e falando qualquer coisa. E digo qualquer coisa porque meu volume estava tão alto que só conseguia fazer leitura labial. Eu, educado que sou, tirei o fone e pedi pra ela repetir, que eu não tinha entendido. E ela repetiu. Num volume TÃO baixo, que mesmo sem fone não dava pra ouvir. E ARGH, que dá na cabeça de uma pessoa pra falar tão baixo com uma pessoa que está, claramente, ouvindo música alta? Ela acha que só porque é velha e surda, todo mundo escuta extremamente melhor que ela e tem obrigação de ter ouvido biônico? Sem entender, pedi pra repetir de novo. E ela, irritada, repetiu um pouco mais alto a frase: senta mais pra cá pra moça poder sentar com o filho.
Ali eu já queria cometer um assassinato. Voar no pescoço daquela velha e apertar até o sumo do maracujá que ela era começar a vazar entre os meus dedos. Bater tanto e com tanta força que ela ia pensar duas vezes antes de me tirar da YUI a próxima vez.
Mas é claro que eu, moço educado do interior (muito diferente do povo grosso dessa cidade, btw), dei um sorrisinho cretino pra ela e me virei para a mãe, que disse que não precisava, pois ela já ia descer. Dei o assunto por encerrado. MAS A VELHA NÃO! Ela insistiu com a mulher pra que se sentasse. E por mais que ela dissesse que não, A VELHA SEGUROU MINHA CAMISETA E ME DEU UMA PUXADINHA.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Eu não sei. Não sei se ela queria ser engraçada, se tinha cometido algum pecado e queria fazer uma boa ação, se tinha me achado gostoso e me queria mais perto. Não sei. Só sei que TUDO o que uma pessoa de quem eu não estou gostando precisa fazer pra me irritar, é me tocar. E ela me tocou. Olhei pra ela com um profundo olhar de desprezo, que ela felizmente interpretou corretamente e me soltou e me voltei pra mãe, perguntando se ela não queria mesmo se sentar. E ela insistiu que preferia ficar em pé. Pra evitar a discussão, é claro que eu coloquei a YUI de volta no ouvido e voltei a cantar. Mas minhas mãos tremiam de vontade de bater naquela velha. E isso seria um problema, porque por mais folgado e filho da puta que um velho seja, bater em velho é pecado de ir direto pro inferno, porque velho já sofreu muito na vida, tem muita experiência e é indefeso e fraco e tudo mais. E sem contar que bater nos outros vai totalmente contra todos os meus princípios. Mas eu queria, muito, deixar aquela mulher toda roxa.
Mas eu sou um menino educado do interior e simplesmente ignorei. Na estação seguinte, desci e ela ficou no trem pra sorte dela, pois se afastar de mim o mais rápido possível era uma boa maneira de garantir a sobrevivência dela por mais algumas semanas.
Agora reflitam comigo: Por que é que raios existem pessoas que insistem em fazer bondade às custas dos outros?! Porque é que eu é quem tinha que ir pra direita pra mulher sentar? Do lado da velha também tinham lugares vazios. Porque ela não podia ir pra direita e chamar a mulher pra ocupar o lugar? Eu me irrito muito com isso, porque, no fundo, isso é coisa de gente folgada. Gente que acha que só elas são certas e que os outros têm que segui-las à risca.
Essa noção de educação nos meios de transporte coletivo é uma coisa que me deixa muito irritado, mesmo. Por que, assim, a gente reconhece que, sendo jovens, temos mais força e mais capacidade pra enfrentarmos uma viagem de uma hora e meia em pé, brigando por um cantinho no ônibus lotado. Mas bom, PRA ISSO EXISTEM OS ASSENTOS PREFERENCIAIS, NÉ? Tá escrito lá o número da lei e quem se encaixa nela (velhos, grávidas, deficientes físicas, obesos –a.k.a. gordos – e portadores de crianças de colo). Aqueles lugares são reservados a eles e não tem discussão: qualquer um que não esteja nessa categoria tem a obrigação de se levantar pros que estão ocuparem o lugar.
Tirando isso, ninguém tem obrigação de nada e quem for mais esperto ganha! É claro que nada me impede de me levantar de um assento comum, para que um senhor mais idoso se sente, ou alguém que aparente estar realmente cansado, ou com dores e, enfim, eu tenho um bom coração e ajudo as pessoas sempre que consigo. O que eu não aceito de jeito nenhum é que, quando eu não o fizer, por qualquer motivo, alguém venha cobrar isso de mim!
“AAh, você é novo. Deixa a senhora ali sentar aqui no seu lugar”. Essa frase, se vinda de uma pessoa que esteja sentada ao meu lado, é um pedido de ódio pro resto da vida. SE A PESSOA QUER QUE A SENHORA ALI SE SENTE, PORQUE NÃO LEVANTA ELA MESMA? Porque sou eu que tenho que me virar pra ocupar um espacinho qualquer no trajeto de quarenta minutos Barra Funda-Rio Pequeno, se eu peguei o ônibus na Barra Funda justamente pra garantir um lugarzinho pra sentar?
Será que só por ser jovem eu não me canso? Não sinto dores? Porque, me desculpem os ‘bondade acima de tudo’, mas eu não vou me levantar pra uma velhinha corcunda sentar se eu estiver cansado ou com dores, em um assento não-preferencial. Não meeeeeeeeeeeeeesmo! A velha não paga meus impostos nem nada. Se alguém quiser ceder o lugar, tudo bem, merece toda a minha admiração. E eu sei bem que eu mesmo levantaria se eu estivesse bem. Mas em meio a dores e a cansaço a lei me garante meu direito de permanecer sentado por ter chegado primeiro. E ainda se a velhinha for simpática, eu me levanto mesmo cansado e com dores, com muito prazer. Porque educação e gentileza devem ser pagos com educação e gentileza sim! Agora grosseria eu pago com grosseria e meia, por que minha TPM é permanente e sem sangramento vaginal (já que, graças a Deus, nem vagina eu tenho, felizmente).
Pra mim, falta de educação no ônibus é ouvir funk sem usar fones de ouvido. É mulher que pega o filho de seis anos no colo, só pra sentar no preferencial porque tá com “criança de colo”. É gente fedida tentando ocupar o mesmo espaço que você. É gente que fala alto, contando às aventuras do irmão na FEBEM. É gente que dorme e ronca. E mulher gorda que se passa por grávida.
E não precisam as crianças pensarem que eu sou daqueles FDP que deixa a velhinha sofredora em pé não. Eu levanto sempre sim, a não ser que eu esteja mesmo muito cansado. Só que eu não tolero gente folgada.
Daí depois eu vejo um senhor idoso ceder o seu assento preferencial pra uma mulher grávida e ninguém levantar pra ele sentar. Isso sim é falta de respeito. Pra esses eu levanto, com muito prazer e ainda dou um sorrisinho simpático.
E as crianças burras façam o favor de comentar e reclamar do transporte coletivo também, porque ninguém gosta suuuuuuper de andar de busão não.
=D